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10.1.16

Como se fosse a primavera




De que calada maneira 
Você chega assim sorrindo 
Como se fosse a primavera 
Eu morrendo 
E de que modo sutil 
Me derramou na camisa 
Todas as flores de abril 

Quem lhe disse que eu era 
Riso sempre e nunca pranto? 
Como se fosse a primavera 
Não sou tanto 
No entanto, que espiritual 
Você me dar uma rosa 
De seu rosal principal 

De que calada maneira 
Você chega assim sorrindo 
Como se fosse a primavera 
Eu morrendo 
Eu morrendo 


[Como se fosse a primavera, Chico Buarque]

29.8.11

... não vai ser em vão que fiz tantos planos de me enganar,
como fiz enganos de me encontrar,
como fiz estradas de me perder,
fiz de tudo e nada de te esquecer.

[Sabiá; Chico Buarque, Tom Jobim]

26.10.08

Futuros Amantes

Mais uma obra prima de Chico, no vídeo extraído do especial que o filho do Sérgio Buarque de Holanda gravou para a Band, por ocasião do lançamento do ábum Paratodos em 1993, ele explica o momento de inspiração que o levou a criar a letra de Futuros Amantes, que tem a cidade maravilhosa como fundo e fala de um amor não correspondido, mas nos consola ao imaginarmos que um dia ele será usado...

Bela letra, linda canção!



"Eu tava mexendo no violão, começando a fazer a melodia, e a primeira imagem que apareceu foi exatamente esta: uma cidade submersa, isolada de tudo. Porque, cantarolando, parecia que a música queria dizer isso. Eu tinha que ir atrás da explicação dessa cidade submersa. Aí eu coloquei os escafandristas, e surgiu a história de um amor adiado, um amor que fica para sempre. Essa idéia do amor como algo que pode ser aproveitado mais tarde, que não se desperdiça. Passa-se o tempo, passam-se milênios, e aquele amor ficará até debaixo d'água. Um amor que vai ser usado por outras pessoas, um amor que não foi utilizado porque não foi correspondido, e então ele fica ímpar, pairando... Esperando que alguém o apanhe e complete a sua função de amor".


Não se afobe, não

Que nada é pra já

O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário

Na posta-restante

Milênios, milênios

No ar


E quem sabe, então

O Rio será

Alguma cidade submersa

Os escafandristas virão

Explorar sua casa

Seu quarto, suas coisas

Sua alma, desvãos


Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização


Não se afobe, não

Que nada é pra já

Amores serão sempre amáveis

Futuros amantes, quiçá

Se amarão sem saber

Com o amor que eu um dia

Deixei pra você


[Futuros Amantes, Chico Buarque]

28.9.08

O meu amor

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos

Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

[O meu amor, Chico Buarque]

16.7.08

Busquei abrigo num quiosque, e me perguntei se
algum dia saberia viver longe do mar,
em cidade que não terminasse assim num acidente,
mas agonizando para todos os lados.

[Chico Buarque, no livro Budapeste]

27.3.08

É sempre bom lembrar
que um copo vazio
está cheio de ar.

[Chico Buarque]

8.8.07

Ai, se eles me pegam agora

Ai, se mamãe me pega agora de anágua e de combinação
Será que ela me leva embora ou não
Será que vai ficar sentida, será que vai me dar razão
Chorar sua vida vivida em vão

Será que faz mil caras feias, será que vai passar carão
Será que calça as minhas meias e sai deslizando pelo salão
Eu quero que mamãe me veja pintando a boca em coração
Será que vai morrer de inveja ou não

Ai, se papai me pega agora abrindo o último botão
Será que ele me leva embora ou não
Será que fica enfurecido será que vai me dar razão
Chorar o seu tempo vivido em vão

Será que ele me trata à tapa e me sapeca um pescoção
Ou abre um cabaré na lapa e aí me contrata como atração
Será que me põe de castigo será que ele me estende a mão

[Ai, se eles me pegam agora, Chico Buarque]

28.5.07

Fica

De 1965, época de repressão, essa canção de Chico é um desabafo a censura da Música Popular Brasileira. Mas como em todas as composições de Chico, até quando é revolta é poesia.

Diz que eu não sou de respeito
Diz que não dá jeito
De jeito nenhum
Diz que eu sou subversivo
Um elemento ativo
Feroz e nocivo
Ao bem-estar comum

Fale do nosso barraco
Diga que é um buraco
Que nem queiram ver
Diga que o meu samba é fraco
E que eu não largo o taco
Nem pra conversar com você
Mas fica
Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Diga ao primeiro que passa
Que eu sou da cachaça
Mais do que do amor
Diga e diga de pirraça
De raiva ou de graça
No meio da praça, é favor
Mas fica

Mas fica ao lado meu
Você sai e não explica
Onde vai e a gente fica
Sem saber se vai voltar

Diz que eu ganho até folgado
Mas perco no dado

E não lhe dou vintém
Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Mas fica
Mas fica, meu amor

Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar

[Fica, chico Buarque]

21.4.07

Sob Medida

É assim que são as canções de Chico, letra e música

em equilíbrio perfeito. Impossível escutar Chico sem

entrar na "viagem" gostosa que a harmonia da

composição instrumental nos proporciona, ao mesmo

tempo em que suas letras nos fazem voltar ao chão,

densas, de uma realidade frágil e determinada,

de revoltas e alegrias, de impulsos e paixões...

Chico sabe "brincar" de um lado ao outro dos

sentidos e sentimentos sem exaltar um mais que

o outro, sua obra possui a dose certa,

a medida exata.

"Sob Medida" foi composta para o filme

República dos Assassinos de Miguel Faria Jr., em 1979


Se você crê em Deus

Erga as mãos para os céus

E agradeça

Quando me cobiçou

Sem querer acertou

Na cabeça

Eu sou sua alma gêmea

Sou sua fêmea

Seu par, sua irmã

Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)

Sou perfeita porque

Igualzinha a você

Eu não presto

Eu não presto

Traiçoeira e vulgar

Sou sem nome e sem lar

Sou aquela

Eu sou filha da rua

Eu sou cria da sua

Costela

Sou bandida

Sou solta na vida

E sob medida

Pros carinhos seus

Meu amigo

Se ajeite comigo

E dê graças a Deus

Se você crê em Deus

Encaminhe pros céus

Uma prece

E agradeça ao Senhor

Você tem o amor

Que merece


[Sob Medida, Chico Buarque]