ando meio
cheio de tudo
[Paulo Leminski]
Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser o tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bênçãos e desgraças
vem sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?
[Atraso Pontual, Paulo Leminski]
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que acharem conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto, tudo e todos...
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar o meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua tocha
Sim, eu estarei aqui.
[Leminski]
Pessoas deviam poder evaporar quando quisessem
Não deixar por aí lembranças, pedaços, carcaças,
gotas de sangue, caveiras, esqueletos e esses
apertos no coração que não me deixam dormir.
[Paulo Leminski]