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9.4.08

Vou chegar atrasada e distraída como
quem saiu do trabalho e foi direto pro bar.
Vou pedir um hi-fi inocente e olhar toda hora pro relógio, como se tivesse alguém me esperando em outro lugar.
Vou rir bastante manter um ar distante
e esquecer quanto tempo faz...
Vou perguntar pelos amigos e se aceitar carona
deixar cair um brinco no banco de trás...

[Martha Medeiros]

22.4.07

Intimidade...

Houve um tempo, crianças, em que a gente não falava de sexo
como quem fala
de um pedaço de torta. Ninguém dizia Fulano
comeu Beltrana, assim, com essa
vulgaridade. Nada disso.
Fulano tinha dormido com ela. Era este o verbo. O
que os dois
tinham feito antes de dormir, ou ao acordar, ficava

subentendido. A informação era esta, dormiram juntos, ponto.
Mesmo que eles
não tivessem pregado o olho nem por um instante.

Lembrei desta expressão ao assistir Encontros e Desencontros.
No filme,
Bill Murray e Scarlett Johansson fazem o papel de
dois americanos que
hospedam-se no mesmo hotel em
Tóquio e têm em comum a insônia e o
estranhamento: estão
perdidos no fuso horário, na cultura, no idioma, e
precisando
com urgência encontrar a si mesmos. Cruzam-se no bar.
Gostam-se.
Ajudam-se. E acabam dormindo juntos.
Dormindo mesmo. Zzzzzzzzzzz.


A cena mostra ambos deitados na mesma cama, vestidos,
conversando, quando
começam a apagar lentamente, vencidos
pelo cansaço. Antes de sucumbir ao
mundo dos sonhos,
ele ainda tem o impulso de tocar nela, que está ao seu
lado,
em posição fetal. Pousa, então, a mão no pé dela, que está
descalço.
E assim ficam os dois, de olhos fechados, capturados
pelo sono, numa
intimidade raramente mostrada no cinema.

Hoje, se você perguntar para qualquer pré-adolescente o que
significa se
divertir, ele dirá que é beijar muito.
Fazer campeonato de quem pega mais.
Beijar quatro, sete, treze.
Quebram o próprio recorde e voltam pra casa
sentindo um
vazio estúpido, porque continuam sem a menor idéia do que
seja
um encontro de verdade, reconhecer-se em outra pessoa,
amar alguém
instintivamente, sem planejamento.
Estão todos perdidos em Tóquio.


Intimidade é coisa rara e prescinde de instruções. As revistas
podem até
fazer testes do tipo: "descubra se vocês são íntimos,
marque um xis na
resposta certa", mas nem perca seu tempo,
a intimidade não se presta a
fórmulas, não está relacionada a
tempo de convívio, é muito mais uma
comunhão instantânea e
inexplicável. Intimidade é você se sentir tão à

vontade com outra pessoa como se estivesse sozinho.
É não precisar
contemporizar, atuar, seduzir.
É conseguir ir pra cama sem escovar os
dentes, é esquecer
de fechar as janelas, é compartilhar com alguém um

estado de inconsciência.
Dormir juntos é muito mais íntimo que sexo.


[Martha Medeiros]

19.4.07

Eu, modo de usar

Delícia a gente (quase) se encontrar em um poema.

Pode invadir ou chegar com delicadeza,

mas não tão devagar que me faça dormir.
Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar.
Acordo pela manhã com ótimo humor mas...
permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos
e minta sobre minha nocauteante beleza.

Tenho vida própria, me faça sentir saudades,
conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas
e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando
este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer,
sofra antes de mim para reconhecer-me um porto,
um albergue da juventude.
Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras,
elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e,
não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada.
(Então fique comigo quando eu chorar, combinado?)

Seja mais forte que eu e menos altruísta!
Não se vista tão bem... gosto de camisa para fora da calça,
gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto:
boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado,
você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.

Leia, escolha seus próprios livros, releia-os.
Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos.
Seja um pouco caseiro e um pouco da vida,
não de boate que isto é coisa de gente triste.
Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai.
Escolha um papel para você que ainda não
tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa,
uma louca que ache graça em tudo que rime com louca:
loba, boba, rouca, boca...
Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal.
Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa,
apresentar sua família... isso a gente vê depois... se calhar...
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.

Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres,
tenha amigos e digam muitas bobagens juntos.
Não me conte seus segredos... me faça massagem nas costas.
Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte!

Se nada disso funcionar... experimente me amar!


[Eu, modo de usar; Martha Medeiros]