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19.11.10

De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças

[Cecília Meireles]

28.3.08

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.


E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.


E o que lembra,
ouvindo-se deslizar seu canto,
mais leve.


E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.


E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.


[Cecília Meireles]

23.2.08

Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

[Murmúrio, Cecília Meireles]

8.10.07

Canções do mundo acabado

Meus olhos andam sem sono
Somente por te avistarem
de uma tão grande distância

De altos mastros ainda rondo
tua lembrança nos ares
O resto é sem importãncia

Certamente não há nada
de tí, sobre este horizonte
desde que ficaste ausente

Mas é isso que me mata
Sentir que estás não sei onde
mas sempre na minha frente

Não acredites em tudo que disser a minha boca
sempre que te fale ou cante

Quando não parece, é muito
quando é muito, é muito pouco
e depois nunca é bastante

Foste o mundo sem ternura
em cujas praias morreram
meus desejos de ser tua

Água salgada me escuta
e mistura nas areias
meu pranto e o pranto da lua,

A mim não fizeste rir
e nunca viste chorar

Por que o tempo sempre foi
longo pra me esqueceres
e curto pra te amar...

[Canções do mundo acabado, Cecília Meireles]

16.8.07

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
Nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
Nem o sorriso para os infelizes
Nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
Nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
O nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
A idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
Vigiados pelos próprios olhos
Severos conosco, pois o resto não nos pertence.

[É preciso não esquecer nada, Cecília Meireles]

26.5.07

Dize:
O vento do meu espírito
soprou sobre a vida.
E tudo que era efêmero se desfez.
E ficastes só tu, que és eterno...

[Cecília Meireles]