26.10.15

O marido não deve ser o último a saber.
O marido não deve saber nunca.

[Nelson Rodrigues]

25.10.15

Inibição

Queria te dizer que conhecia a Argentina
e que tinha um amigo
corredor de fórmula um
e dizer que era personagem
de uma peça de Mário Prata
e que havia jogado no Linense
com o estádio lotado
Queria te contar lorotas
até que me achasse o maior
e me levasse pela mão
e me dissesse com gosto
que queria ouvir os meus casos
e aprender os meus truques.
Queria te encher de beijos
como em medalhinha de padroeira
e te fazer carinho
como em gato de armazém
e ler tua mão e decifrar tua letra
e te ensinar os segredos das pirâmides
e todas as declinações latinas
e, de quebra,
te falar um poema de amor.
Mas teus cabelos eram tão loiros
e teus olhos tão sofridos
que eu fiquei na minha
e só te disse oi.
[Sérgio Antunes, Inibição]

24.8.15

O amor deveria perdoar todos os pecados, 
menos um pecado contra o amor. 
O amor verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, 
menos para as vidas sem amor.

[Oscar Wilde]

21.8.15

Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas suas respostas.

[Voltaire]

10.8.15

Quando eu deixei você entrar
não era para mexer em tudo!


[Bento Nascimento]

19.7.15

Eu vi todas as minhas cores em espírito,
diante dos meus olhos.
Selvagens, linhas quase loucas
foram esboçadas na minha frente.

[Kandinsky]

11.7.15

Amigo é casa


Amigo é feito casa que se faz aos poucos
e com paciência pra durar pra sempre
Mas é preciso ter muito tijolo e terra
preparar reboco, construir tramelas
Usar a sapiência de um João-de-barro
que constrói com arte a sua residência
há que o alicerce seja muito resistente
que às chuvas e aos ventos possa então proteger
E há que fincar muito jequitibá e vigas de jatobá
e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás
não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar
que os cabelos brancos vão surgindo
Que nem mato na roceira que mal dá pra capinar
e há que ver os pés de manacá cheínhos de sabiás
sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis choro de imaginar!
pra festa da cumieira não faltem os violões!
Muito milho ardendo na fogueira
e quentão farto em gengibre aquecendo os corações
A casa é amizade construída aos poucos
e que a gente quer com beira e tribeira
Com gelosia feita de matéria rara
e altas platibandas, com portão bem largo
que é pra se entrar sorrindo nas horas incertas
sem fazer alarde, sem causar transtorno
Amigo que é amigo quando quer estar presente
faz-se quase transparente sem deixar-se perceber
Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.
[Capiba e Hermínio Bello de Carvalho]